Arquivo da categoria: Questão teórica

Do sampler e do Mash-up

Marcel Duchamp fazia sua arte a partir de objetos já existentes, dando uma nova visão a eles. Hoje, a produção artística passa por uma discussão sobre esse mesmo tema: será que já inventaram de tudo e só o que temos a fazer é recriar o já existente?

A questão da “reciclagem” nas artes, principalmente na música, continua a evoluir. Com o sampler, objeto que armazena sons e é capaz de reproduzi-los um a um ou em grupos, vários artistas já se utilizaram de ritmos antigos para suas novas músicas: Madonna, Marcelo D2, Amy Winehouse, Black Eyed Peas, entre muitos outros; dando o devido crédito ao dono do ritmo utilizado.

Abaixo, a música original de Marvin Gaye, “Ain’t No Mountain High Enought” e a música “Tears Dry on Their On”, onde Amy Winehouse fez uma citação, utilizando o mesmo ritmo da música de 1967.

Original:

A citação, de 2007:

E quando é criada uma nova música, completamente diferente, contendo apenas partes de músicas já existentes?

O Mash-up é uma composição musical feita de duas ou mais músicas, normalmente mesclando o vocal de uma com o instrumental da outra. Mas pode-se ir muito além disso. O DJ e produtor musical Gregg Gills, conhecido como Girl Talk, com sua própria gravadora ironicamente chamada de Illegal Art, utiliza-se de samplers e trechos de várias músicas para construir suas próprias composições. O DJ já lançou quatro álbuns com músicas inteiramente feitas a partir de outras, sempre gerando polêmica, já que ele utiliza as músicas, mas não tem o direito sobre elas.

Para se ter uma idéia de até onde a mistura de sons pode chegar, “Once Again”, primeira música do album “Night Ripper”, é composta por músicas de Ciara, NSYNC, Boston, Ludacris, Fabolous, Ying Yang Twins, The verve, Outkast, M.I.A, Webbie, Oasis, Slim Thug, Arrested Development, Young Jeezy, Genesis, Boredoms, Positive K, The Five Stairsteps e Eminen.

“Once Again”, Girl Talk:

Atualmente, a originalidade não é só de quem cria. Aquele que recria, daquilo que já existe, é tão original quanto. Segundo Marcus Bastos, no texto “A Cultura da Reciclagem”: “No entorno do universo inaugurado pelo sampler, as práticas de reutilização, apropriação e reciclagem de mídias invertem o lugar do anônimo. Nesse contexto, reciclar é marca de uma sociedade em que o excesso e a velocidade interessam porque não são nossos.”

 

Referências:
BASTOS, Marcus. “A cultura da Reciclagem” In: BRASIL, André. et.al.(org) Cultura em fluxo: Novas Mediações em Rede. Belo Horizonte: PUC Minas, 2008.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gregg_Gillis
http://pt.wikipedia.org/wiki/Night_Ripper
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Haring

Keith Haring é um dos maiores nomes das artes plásticas da década de 80. Depois da atenção voltada para o neo-expressionismo no fim da década de 1970, agora, na década de 80, era a vez de o grafite ter essa atenção.

Segundo Edward Lucie-Smith: “Ela [a arte do grafite] transferiu os sinais e símbolos que já adornavam (ou desfiguravam, dependendo do ponto de vista) o metrô de Nova York às paredes das galerias comerciais de arte, e dalí aos museus e lares opulentos. O Grafite parecia ser uma continuação legítima da arte pop.”

Keith mudou-se para Nova Iorque em 1978 e, matriculado na School of Visual Arts (SVA), conheceu uma comunidade artística que se desenvolvia fora do eixo das galerias e dos museus, e sim nas ruas, nos metrôs e nos clubes noturnos de dança. Tomado pela energia dessa cena artística, Haring desenvolveu uma arte gráfica baseada em traços grossos, onde seus personagens pareciam sempre estar em movimentos, além das cores vibrantes.

Enquanto estudava na SVA, Keith fez colagens, performances, instalações; mas nunca deixou o desenho de lado. No ano de 1980, o artista teve a idéia de desenhar com giz nos painéis vazios de publicidade, que ficavam cobertos por um papel preto, do metrô de Nova Iorque. Haring produziu centenas de desenhos ao longo do percurso do metrô, ficando assim conhecido pelas pessoas que faziam o trajeto no dia a dia.

Entre 1980 e 1989 Keith atingiu reconhecimento internacional. Durante esse período, participou de bienais e pintou diversos murais pelo mundo, um deles no muro de Berlin, três anos antes de ser derrubado.

Alguns dos desenhos do artista possuíam temáticas sexuais e homo-eróticas.

Haring foi diagnosticado com AIDS em 1988 e, no ano seguinte, criou a Keith Haring Foundation, fundação que levantava fundos em prol das crianças portadoras do vírus HIV. A partir de então, Keith dedicou os últimos anos de sua vida com obras voltadas a conscientização e o ativismo a respeito da AIDS.

Keith Haring dedicou, durante sua carreira, muito de suas obras a locais públicos, que quase sempre continham mensagens sociais. Muitas dessas obras eram direcionadas para orfanatos, creches e hospitais.

 

Tuttomondo (1989). Mural em igreja, na Itália, dedicado à paz mundial.

Keith morreu aos 31 anos, deixando sua arte espalhada pelos muros do mundo. E, para mostrar que o artista ainda é e será referência de muitos outros artistas, uma foto da obra do grafiteiro inglês Banksy, que fez uma homenagem em um muro da periferia de Londres. A obra se chama “Haring dog”.

Referências:
LUCIE-SMITH, Edward. Os movimentos artísticos a partir de 1945. Cap.8 Os Estados Unidos – da década de 1970 à década de 1990. SP: Martins Fontes, 2006.
http://www.keithharing.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Keith_Haring

Performance

Cunhado no início dos anos 70, o termo performance é bastante escorregadio em se tratando de conceito. Segundo a autora Regina Melim, no livro “Performance nas artes visuais”, quando ouvimos a palavra performance, logo remetemos ao corpo como parte construtiva da obra, em um espaço e tempo específicos, porém esse termo é mais do que isso.

Como um desdobramento da pintura e da escultura e agrupado a elementos do teatro, da dança, da poesia e da música, a performance expõe-se aberta e sem limites. Esse gênero tem suas origens ligadas às vanguardas européias, que também buscaram um novo caminho para as artes visuais. “Desde as vanguardas Européias, já se esboçavam ações performáticas que objetivavam rupturas, como as que ocorreram no futurismo, no construtivismo russo, no dadaísmo, no surrealismo e na Bauhaus.” (p.10)

Regina diz em seu livro que “a trajetória da performance no século XX se configurou como uma nova história de um meio aberto, permissivo, e com grande número de variáveis. Sempre quando um movimento pareceu encontrar um impasse, os artistas voltaram-se para as ações performáticas como um modo possível de romper com as categorias existentes e apontar novas direções.” (p.10) Foi, então, a partir do segundo pós-guerra que as performances se tornariam mais freqüente.

Dentre tantos artistas performáticos do século XX, uma em especial me chamou a atenção: o nome dela é Marina Abramović.

Marina usa seu corpo como “material” e o espaço em que ocupa como “campo de atuação”. Ela chega com frequência aos limites físicos e mentais suportáveis, indo, por vezes, além deles. Tornou-se conhecida por uma série de performances na década de 70 que envolviam dor física.

"Rhythm 10" (1976)

Abramovic fazia ferimentos em si mesma “com o intuito de fugir de seu corpo culturalmente determinado e disciplinado.” (Grosenick, Uta. Mulheres Artistas. p. 21)

Na obra abaixo, “Imponderabilia” (1977), Marina e seu companheiro Ulay (Uwe Laysiepen) ficaram nus, frente a frente, na entrada do museu. Todas as pessoas que entravam teriam que passar entre eles, escolhendo qual dos dois ficarariam cara a cara.

"Imponderabilia" (1977)

Até hoje Abramović apresenta suas performances. De março a abril de 2010, a artista realizou a obra “A artista está presente”. Durante cerca de 716 horas ela ficou sentada em silencio numa sala do museu de Nova Iorque. Os visitantes eram convidados a sentar-se em frente a Marina e ficarem lá o tempo que quisessem.

A performance deve ser ampliada, também, ao participador, para assim torná-la comunicativa de todas as formas. Como na obra “A artista está presente”, apesar de Marina não pronunciar uma palavra sequer, a participação do público era essencial para complementar a performance.

Fonte: MELIM, Regina. Performance nas artes visuais. RJ: Zahar, 2008.
GROSENICK, Uta. Mulheres artistas. Taschen, 2005.

 

Warhol

O termo “pop art”, que foi empregado pela primeira vez em 1954 pelo critico inglês Lawrence Alloway, surgiu para denominar os produtos da cultura popular advindos principalmente dos Estados Unidos.
Após a grande crise de 29, foi dado ao povo norte-americano um novo padrão de vida, voltado ao consumismo e ao poder de compra: o chamado Sonho Americano.
Como uma espécie de revolta a esse consumismo exagerado das sociedades modernas, as obras de arte deixariam de ser expostas nos museus e os artistas pop mostrariam agora suas criações nos cartazes, pôsteres nas ruas e nas capas dos discos.
Como um dos maiores nomes da pop art está Andy Warhol. O artista que mostra em suas obras principalmente celebridades e produtos de consumo de massa, se apropria da imagem de alguém público, que vemos o rosto todos os dias enfileirados nas bancas de jornal e nas revistas, para mostrá-la como uma informação massiva já gasta, consumida, desfeita.
Provavelmente, sua obra mais conhecida, o rosto de Marilyn Monroe multicolorido é o exemplo da imagem das celebridades estampada e exibida milhares de vezes ao publico que a idolatra.

Marilyn, 1964.

De fato, as obras de Andy Warhol eram vistas como a encarnação perfeita da crítica ao “Sonho Americano”.
Das prateleiras de sopa Campbell’s às milhares de garrafas de Coca-Cola enfileiradas, o trabalho de Warhol constituía-se em chamar a atenção do publico para as coisas vazias e banais daquele período.

Before and After, 1960.

Andy Warhol é, sem duvida, o artista pop mais influente da década de 60. Suas obras mostraram ao mundo a visão daquilo que antes não era arte mais era visto todos os dias, em todos os lugares, só não admirado.

Cinema clássico x Cinema moderno

1895 é o ano que, segundo críticos e historiadores, o cinema foi criado. Desde essa data diversos gêneros surgiram, mas foi com o Cinema Clássico americano que a indústria cinematográfica despontou.

Enquanto os demais países estavam se preparando para a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos desenvolve imensamente o cinema enquanto indústria e o torna a principal forma de entretenimento de massa. O cinema clássico americano constituiu a maioria das características da linguagem cinematográfica. Segundo Adriano Medeiros da Rocha, “(…) a partir de então, poderíamos denominar de clássico aquele período em que se criaram as principais regras do cinema” ¹.

As principais características do cinema clássico eram a forma com que suas histórias eram sempre marcadas pelo início, meio e fim (sempre com o tradicional final feliz), possuía uma realidade ilusória de um mundo de magia e encantamento e funcionavam como uma forma de escapismo da chata realidade para um novo mundo.

Os estúdios americanos faziam grandes investimentos para tornar tudo o mais real possível, fisgando o espectador, que logo se viu preso a este estilo de fazer cinema.

Porém, com o fim das guerras mundiais, novas ideias surgiram na cabeça dos cineastas europeus da época e a forma de produção norte-americana foi perdendo sua hegemonia.

Surgiram então os movimentos pós-guerra, que contestavam o jeito ilusionista do cinema da época e propunha renovações. Queriam que o cinema mostrasse a verdadeira realidade do povo que, naquele momento, via-se arrasado pelas batalhas. É aí que, como exemplo, temos o Neo-realismo italiano.

Os cineastas saem dos estúdios paras mostrar as ruas e trocam os heróis Hollywoodianos por homens simples e comuns, não profissionais. Com temáticas contestadoras, os filmes retratam o dia-a-dia do proletariado e da pequena burguesia.

(Roma, cidade aberta. Roberto Rosselini, 1945)

 

A Nouvelle Vague francesa também é um movimento pós-guerra que busca a renovação da linguagem cinematográfica. Em 1957, um grupo de jovens propõe um cinema de baixo custo que seja diferente do cinema de estúdio e dos padrões narrativos. A Nouvelle Vague, diferente do Neo-realismo, não se volta para a situação social do país, mas sim para as questões existenciais dos personagens.

(Acossado. Jean-Luc Godard, 1959)

 

Os cineastas modernos difundiram novos valores e concepções e tiraram aquela estrutura tradicional do cinema clássico, misturando realidade e ficção e pregando uma maior liberdade narrativa.

¹ – Trecho do texto “Construindo o Cinema Moderno”, de Adriano Medeiros Rocha, p. 2

 

Revolução cultural

O século XX se caracterizou pelos inúmeros avanços tecnológicos, descobertas científicas e conquistas da civilização. Eric Hobsbawm, no livro “A Era dos Extremos” aborda a questão da revolução cultural, nesse mesmo período, e como ela se desenvolveu nas sociedades.

O que antes eram padrões, agora se tinha maior liberdade para incluir-se fora deles. O número de divórcios aumentou consideravelmente, as mulheres obtiveram mais liberdade e muitas delas tornaram-se mães solteiras. Todas essas mudanças afetaram a estrutura familiar e tornaram coisas até então proibidas, pela religião e pela moral, aceitáveis.

Segundo Hobsbawm, “Se o divórcio indicava uma crise nas relações entre os sexos, o aumento de uma cultura juvenil extraordinariamente forte indicava uma profunda mudança nas relações entre as gerações.”. A juventude, acima de tudo, significava um mercado global de disseminação de ideias e comportamentos. Isso fez com que a indústria fonográfica tivesse um grande crescimento através do rock, que vendias seus discos quase inteiramente a clientes entre 14 e 25 anos.

A rapidez das mudanças tecnológicas dava a juventude uma grande vantagem sobre a geração de adultos ou aos menos adaptáveis a tais mudanças. “O que os filhos podiam aprender com os pais tornou-se menos óbvio do que o que os pais não sabiam e os filhos sim. Inverteram-se os papéis das gerações.” – Disse Hobsbawm. A cultura jovem se tornou a matriz dessa revolução.

Surgem, por fim, inseguranças quando um velho hábito perde a sua razão, mas cada vez mais os comportamentos considerados “padronizados” estão sendo derrubados. Assim, a revolução cultural pode ser entendida como o rompimento de padrões e comportamentos esperados pelas pessoas, “seus papéis eram prescritos, embora nem sempre escritos”.

Análise do texto “Revolução cultural” de Eric Hobsbawm, do livro “A Era dos Extremos” p. 314 à 333.

Das Cabinet des Dr. Caligari

O expressionismo alemão, estilo cinematográfico dos anos 20, se estendeu por quase todas as artes: no cinema, no teatro, na pintura até na literatura e na dança. Buscavam uma posição contrária ao mundo que surgia com a primeira guerra mundial e acima de tudo pretendiam mostrar que o sentimento tinha mais valor que a razão.

Como precursor do movimento no cinema, o filme “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919), de Robert Wiene (1881-1938), nos mostra as principais características do Expressionismo.

Os ângulos das câmeras são desproporcionais, os atores fazem gestos marcantes e usam maquiagem exagerada, as sombras fazem formas esquisitas e buscam um retorno aos temas góticos. Tudo isso são características de um cinema mais misterioso e de um filme que é considerado o primeiro do gênero terror.

Os cenários foram feitos de madeira, papel e tecido e as sombras foram pintadas por pintores também expressionistas, Walter Reimann e Walter Rohrig, e pelo cenógrafo Hermann Warm. Estes cenários ainda existem e podem ser encontrados no Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris.

“O Gabinete do Dr. Caligari” teve grande influência pelo mundo e até hoje é referência para vários nomes do cinema. Um exemplo é Tim Burton, que usa as mesmas características dos temas sombrios, cenários tortos e maquiagem forte, e, além disso, caracterizam histórias em quadrinho de terror.

O filme completo você pode ver aqui: